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A Quinta da Boa Vista e o Império Perdido

A Quinta da Boa Vista e o Império Perdido

Como toda carioca nascida e criada no Rio, tenho dezenas de memórias afetivas da Quinta da Boa Vista. Um dos maiores parques urbanos da cidade, a Quinta foi o lugar preferido para os passeios familiares dos fins de semana em décadas passadas, antes das outras atrações começarem a roubar a atenção dos visitantes que frequentavam São Cristóvão. 

No parque, além do zoológico havia o (então intacto) Museu Nacional. Eram dois lugares economicamente acessíveis e (ainda) agradáveis - época de ingressos baratos onde os combos de balde de pipoca com "refri" a 30 contos seriam coisa de um futuro distante.

Dava pra flanar e curtir as atrações, sobretudo aos domingos. Íamos sempre em trio: meu pai, meu irmão e eu. Mas se a família não te levasse ao Museu, era impossível não ir com a escola. Visitei o palacete muitas vezes - menos que o zoo, mas frequentei.

Que o leitor não se engane. Não estou fazendo descrições de um oásis. Elaborando aqui uma rápida lista mental dos pontos eternamente perigosos da cidade, tenho uma vaga lembrança de que a Quinta já estava nessa lista naquela ocasião. Ainda pré adolescente tive a primeira experiência de um assalto quando levamos um primo de fora pra passear no parque.

Arrancaram a máquina fotográfica do meu pai. A experiência ruim foi um divisor de águas pra nós. O fato é que abolimos de vez o zoológico dos nossos domingos de lazer. E alguns anos depois, adulta e vacinada, tive vontade de voltar ali muitas vezes mas sempre fui freada pela questão da insegurança pública. 

Durante a graduação de História compreendi a fundo a importância que a região tinha para a cidade. E aí, já no final da década de 90, tudo no parque tinha ganhado significados diferentes pro carioca.

O zoo não era mais uma atração “politicamente correta” pelas más instalações e o Museu Nacional gritava a sua decadência pela falta de investimentos. O bairro de São Cristóvão, apesar da sua tradição e dos edifícios históricos que conservou, nunca atraiu o povo para caminhar pelas suas ruas imperiais.

E o parque ficou cada vez mais abandonado, sem nunca ter recebido um plano de turismo à altura de seu valor histórico. Frequentado sempre foi, mas poderia ser um Central Park com investimento em eventos comerciais, mobilidade e cultura. 

Em 2016 o grupo Cataratas assumiu o zoológico e, de certa forma, era esperada uma revitalização da Quinta. Mas o resto do parque já estava muito esculhambado e não houve tempo de sonhar alto.

Um ano depois viria o incêndio que transformou o nosso maior patrimônio histórico em cinzas. Inclusive, nesse fatídico dia, conseguia ver do meu apartamento a vermelhidão das labaredas no céu. Foi um choque. Nossa memória afetiva queimou junto com o palácio que um dia abrigou um pedaço do nosso Império.

Parece que no Brasil nenhuma perda é suficiente para fazer a prefeitura e o governo do Estado tentarem reverter esse quadro. Há cerca de um mês atrás uma reportagem do jornal O Globo mostrava a interdição do Templo de Apolo,  localizado nos jardins do parque. As estruturas estão podres e há risco de caírem.

A Defesa Civil teve que interditar. A que ponto chegamos pela falta de gestão e também pela falta de valorização do nosso patrimônio. Investimentos certos e segurança poderiam ter revitalizado a Quinta há muitos anos e esse dinheiro poderia ter sido revertido para a sua manutenção. 

Hoje o zoológico passa por uma grande obra que está tentando transformá-lo em um “zoo moderno”. Além disso, seguem as obras de recuperação do Museu. Espera-se que a área depois de pronta possa voltar a seduzir os visitantes. A questão é que se o acesso se tornar caro - e talvez o do zoo venha a ser - continuaremos com essa imensa área sem oferecer o potencial que ela tem. Visitantes que seriam "potencialmente" frequentes não poderão pagar pelos ingressos em razão do preço. Mais ou menos o que aconteceu com o AquaRio na zona portuária, também do grupo Cataratas. Sem desconto sua entrada custa R$120. Carioca paga metade mas ainda assim a conta fica alta se a gente pensar numa família que vai passar o dia por lá. 

É de cortar o coração imaginar o que Quinta poderia ser e nunca foi. Numa época em que já está comprovadíssimo o benefício das áreas verdes para a nossa saúde, a promoção de atividades físicas no local com policiamento e equipamento público adequado seria um presentão para o Rio.

Além disso, o uso de transportes ativos deveria ser incentivado na região. Sem contar as atividades culturais e educacionais que trariam um grande charme para o parque: hortas, botânica, arte, fotografia, restauração... D. Pedro II aprovaria, sem dúvida. No bairro há também espaço e pontos de interesse para a realização dos passeios a pé - que às vezes são realizados, claro, mas não com a frequência que gostaríamos de vê-los. A Quinta precisava mover muita gente todos os dias. Não move. Um Império perdido.

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Thatiana Murillo
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Fundadora do movimento Caminha Rio

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