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Fui Multada no Dia do Pedestre, que Vergonha!

Fui Multada no Dia do Pedestre, que Vergonha!

Era dia 8 de agosto. Tinha um compromisso num hotel do Santo Cristo às 15h, uma apresentação de uma pesquisa de mobilidade urbana importante onde estariam parceiros de trabalho. Quando se trata de ir à zona portuária do Rio há duas opções de transporte menos complicadas e mais rápidas. Ou você usa Uber ou vai de VLT (combinado com outro transporte público, claro). Optei pelo segundo porque era cedo.

Peguei o metrô até a Central do Brasil e atravessei a pé a passagem “por baixo” do edifício para acessar a plataforma do VLT do outro lado. O “bondinho” chegou rápido, entrei feliz, validei o cartão e já na estação seguinte – a Gamboa – desci em busca do meu destino. Pedi informação, andei um pouco e estava na porta do hotel em menos de dez minutos. Alívio. A região do Santo Cristo, sinceramente, é um desses lugares desertos e esquisitos que não convida ninguém a flanar tranquilo.

Desde que foi inaugurado, poucas vezes usei o VLT. Talvez em duas ou três ocasiões, a passeio, há muito tempo atrás. E mais recentemente quando acompanhei minha mãe de Uber ao aeroporto Santos Dumont e usei o VLT na volta até minha “conexão” com o metrô. Como não sou usuária frequente ainda desconheço as linhas e algumas regras do sistema. Pra vocês terem uma ideia, só descobri que tinha uma máquina pra consultar o saldo do cartão na estação nesse dia que voltei do Santos Dumont. Faz parte.

Tenho feito um esforço para deixar o Uber de lado. Por questões econômicas e também para defender aquilo que eu acredito, que o mundo necessita mesmo de menos carros nas ruas. Mas quando a gente é mulher e vai sozinha a certos lugares, às vezes é quase impossível abrir mão de um carro que nos leva de porta a porta - o que também não é infalível. Estou tentando quebrar minha blindagem e encarar o desafio.

Duas horas depois, compromisso realizado, era hora de partir. Tinha planejado a volta de Uber, mas a minha companheira de Caminha Rio estava lá e ia pegar o VLT. Para nossa segurança decidimos voltar juntas e entrar na estação mais próxima da porta do hotel. Ela ia para outro lado mas, mesmo que eu tivesse que gastar mais tempo indo mais longe, achei que a ideia era boa. Definitivamente eu não queria descer na Central sozinha.

Estava escurecendo, passava das 17:30, a estação do VLT na porta do hotel estava vazia como tudo ali em volta. Então veio o bondinho e a gente pulou pra dentro. É um instinto de sobrevivência. A gente nem lembra se tem saldo no cartão ou não, você quer fugir do local hostil. Na hora de validar meu cartão surge a mensagem ingrata na telinha: saldo insuficiente. Eu me senti muuuuuuito mal. Não tinha a menor ideia do que fazer.

Meu impulso foi descer na outra estação para carregar o cartão, mas a Sandra não deixou. Em parte por preocupação de me deixar sozinha num lugar bizarro, em parte porque ela acreditou que explicando a situação deveria existir uma forma de pagar a passagem e resolver o problema. Afinal, isso já tinha acontecido com ela anteriormente. A consequência seria apenas a advertência. Acatei e sentadas esperamos o desfecho.

Não posso reclamar da abordagem da fiscal e do guarda, bastante educados. Cheguei a perceber a cara de pena do guarda quando ele entendeu, pela minha reação constrangida, que eu realmente não estava de papo furado. Provavelmente ele deve conhecer histórias de assaltos ali pela região e sabe que o medo é normal. Cada um se defende como pode.

Fui orientada a esperar 24 horas para a notificação entrar no sistema e acessar um site para entrar com um recurso. Contrariada, descobri 48 horas depois que o recurso não é aceito através do site. O cidadão fica obrigado a se deslocar até o bairro de São Cristóvão para se defender com o velho sistema do formulário em papel. Um tremendo dificultador para escapar da multa de R$ 170. Sem dúvida vou apresentar a minha defesa.

Quem é carioca e sobrevivente desta cidade sentiu, na pele, os traumas da violência urbana. Já fui assaltada com faca dentro de ônibus, com arma de fogo por motoqueiros na rua e também sofri um sequestro relâmpago com um amigo, estávamos no carro dele. Sei, por experiência própria, que não tem essa de modal mais ou menos ameaçador. Mas no caso de um transporte onde a estação parece um posto fantasma num bairro com má fama a sensação de medo é horrível. Essa é a nossa realidade. Há dois anos, os próprios funcionários do VLT denunciaram uma onda de assaltos nas estações.

Não estou negando o meu erro. Sou totalmente a favor de fiscalização e multas. Mas creio que as concessionárias podem criar mecanismos de tolerância para casos e situações de exceção. São Paulo, por exemplo, instituiu a Lei 16.490, que determina que mulheres, travestis e idosos possam descer fora do ponto de parada dos ônibus entre 22 horas e 5 horas, desde que a descida ocorra em um local que obedeça ao trajeto regular da linha e onde não seja proibida a parada de veículos. É um direito simples que salva uma vida. E permite aos grupos mais vulneráveis se deslocaram de forma mais digna. Custava deixar pagar a minha passagem na outra estação acompanhada do fiscal?

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Thatiana Murillo
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Fundadora do movimento Caminha Rio

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