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Mobilidade Ativa: A Pé para Escola

Mobilidade Ativa: A Pé para Escola

Se neste instante eu pudesse entrar numa máquina do tempo e viajar ao passado, escolheria voltar ao primeiro dia que fiz o caminho da escola para a casa a pé.

Nunca imaginaria que, tantos anos depois desse longínquo dia, estaria envolvida com um trabalho de mobilidade ativa ativa cujo foco são os pedestres. Seria interessante, hoje, poder relatar (e resgatar) as sensações envolvidas, os cenários, o clima, a companhia dos colegas e outros detalhes que se perderam nas profundezas dos meus esquecimentos.

Embora as principais recordações dessas aventuras de independência tenham sumido, a única certeza que tenho é que foi, sim, uma volta da escola, e não uma ida para a escola. Quando a minha mãe acreditou que eu era capaz de fazer esse trajeto de forma autônoma, já estava no segundo segmento do ensino fundamental e estudava no turno da tarde. Almoçava cedo e com pressa. Não poderia ser uma ida…

Daqueles anos ficaram memórias esfumaçadas que ainda estão acessíveis. De fato não era comum que eu voltasse da escola só. Tinha alguns colegas que faziam trajetos mais ou menos parecidos. Até certo ponto da minha área residencial nós voltávamos todos juntos.

Uma das amigas frequentes nessa volta era a Malu, que já andava para a escola sozinha há mais tempo do que eu. Como morávamos em quarteirões muito próximos, ela me ensinou umas rotas alternativas nas quais a gente “encurtava” o caminho passando por ruas pequenas com menos movimento. Graças a ela eu conheci essa parte do bairro que até então era absolutamente oculta para mim.  

Lembro que às vezes, em dias mais frios, chuvosos ou escuros, pegávamos os ônibus como meio de transporte, mas quase sempre optávamos por voltar a pé. Era nossa hora de botar o papo em dia depois do sagrado ritual de escolher um doce no baleiro ou passar na papelaria para comprar cartolinas e papel almaço para os trabalhos de casa. Uma época onde a bagunça na escola ainda era controlada e a gente sabia extravasar na hora certa. 

Foi uma fase da vida muito boa. Provavelmente um tempo onde eu aprendi a ganhar segurança para me deslocar pela cidade sem um adulto. O portão da minha escola ficava bem em frente a uma das entradas do Maracanã. Apesar da magnitude do estádio,  essa região nunca foi das mais aprazíveis e ter um certo cuidado para circular por ali era crucial. 

Sou da “geração playground” e a rua não foi exatamente a extensão do meu quintal. Prestar atenção no trânsito, aprender a reconhecer os lugares, os edifícios, as situações que se apresentam quando a gente está indo e vindo por aí, tudo isso era necessário caminhando. Eram os anos 80 e o Rio de Janeiro tinha deixado de ser tranquilo como nas décadas anteriores. Mas a minha mãe sabia que era importante nos permitir esses passos para a trilha da maturidade. Afinal ela teve a mesma educação sem frescuras, porém mais dificuldades do que os filhos para estudar.

Houve um tempo em que ir ao colégio significava andar e pedalar para a maioria das crianças. Afinal sempre fez sentido estudar perto de casa. Se a escola ficasse longe e os recursos de mobilidade fossem escassos - como ainda acontece em várias partes do planeta - o jeito era andar muito e gastar a sola do sapato. Foi o caso da minha mãe, que tinha que andar bastante para chegar à escola dela. 

Nas cidades o transporte público “supriu” essas necessidades um pouco mais cedo. Com as décadas, as políticas para a educação foram se expandindo e o governo hoje tem até o programa Caminho da Escola, uma frota de veículos escolares das redes municipal e estadual de educação básica pública.

Ele é voltado, prioritariamente, a estudantes residentes em áreas rurais e ribeirinhas. Oferece ônibus, lanchas e bicicletas fabricados especialmente para o tráfego nessas regiões. Quem não tem transporte escolar anda no transporte público de graça. É um direito conquistado.

No entanto estou aqui para falar de um outro aluno, aquele que não vai para a escola a pé, nem de bicicleta nem de ônibus. Ano passado o Censo Escolar da Educação Básica contabilizou 184,1 mil escolas no Brasil. Do total de colégios, 21,7% são privados. E é neste último número que o Caminha Rio está de olho. Calculamos que haja uma boa porcentagem de alunos levados de motorizados particulares para as escolas - carros, motos, vans, etc. 

O Dia da Mobilidade Ativa

Entre todas as datas nacionais e internacionais que marcam a mobilidade ativa existe uma especial para mim: o dia de ir a pé para escola. Neste outubro, por exemplo, várias cidades dos Estados Unidos celebrarão o “walk and bike to school day”. Em alguns países, como o Reino Unido, o “dia de ir a pé para escola” se torna uma semana inteira de caminhadas e bondes escolares a pé. Bacana né?

Inspirados nessa turma e em organizações do Brasil que já fazem um trabalho voltado para colocar as crianças nas ruas, nós começamos a elaborar um projeto para levar às escolas particulares. Não tem sido fácil porque precisamos lidar com sérias questões de segurança pública que hoje assolam as cidades. Mesmo assim não vamos desistir. 

Hoje a vida está mais complicada pra quem tem filhos adolescentes. Além da falta de segurança pública há outras ameaças. Mesmo assim, colocá-los na “redoma de um motorizado” não é uma garantia de que nada sucederá. Não existe lugar intocável e às vezes o perigo mora dentro da nossa casa numa telinha de celular. Como experimentei a rua sozinha, relativamente cedo, sei que é um ritual importante para a vida adulta.

Há muitas questões aí: a independência da criança, a melhoria do trânsito nas ruas entupidas por carros de pais e mães no leva e traz dos seus pimpolhos, a promoção da mobilidade ativa para melhorar a qualidade do ar e tudo que pode ser aprendido no trajeto casa-escola-casa. Mas tem uma questão que é urgente para nós: a saúde.

As últimas notícias trazem um quadro alarmante no que diz respeito ao ganho de peso da população. A Organização Mundial da Saúde aponta que 41 milhões de crianças menores de cinco anos estejam acima do peso. O Brasil está nessas estatísticas. Para a Sociedade de Pediatria esse dado é alarmante e a conscientização é urgente para prevenir a obesidade infantil. Foi criada inclusive a campanha “setembro laranja”. O intuito é conscientizar a comunidade médica e a população em geral sobre a importância de práticas alimentares saudáveis em casa e nas escolas, bem como estimular a prática de atividades físicas. 

É claro que tem crianças e adolescentes que estudam bem longe. Aí não tem jeito mesmo. Mas eu canso de ouvir casos de gente que mora a três quadras da escola e leva os filhos de carro. Gente, vamos botar essas crianças pra andar um pouco? Acreditem: tem vários países hoje fazendo campanhas e programas para promover essas caminhadas de forma mais frequente, inclusive com apoio dos órgãos oficiais de saúde. 

Interessante caro leitor é que as épocas mudam mas o desenvolvimento do ser humano é o mesmo. Esse (re)conhecimento dos espaços é tão extraordinário que muito cedo a criança aprende a identificar o seu caminho. Mais cedo do que muita gente pensa. Em abril deste ano reportagens mostraram o caso de um menino de dois anos no município de Cajuru (SP) que saiu da creche e foi andando para a casa sozinho. Houve um descuido e o portão ficou sem vigilância. O danado então se pirulitou e ninguém viu. A mãe ficou indignada, claro, e houve até o afastamento da funcionária responsável pela falha. 

Não há dúvidas de que a situação foi absurda, afinal o menino poderia ter sido atropelado, abordado por um estranho ou passado por outras situações de risco. Mas estou citando o caso porque, apesar de evidenciar a falta de segurança da creche, mostra como a criança foi capaz de reconhecer seu trajeto de cerca de 1km até sua casa. Se fosse levado de carro provavelmente não chegaria em casa quando “fugisse” da creche. Alguém duvida?

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Thatiana Murillo
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Fundadora do movimento Caminha Rio

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