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Respeite o Pedestre, Especialmente o Idoso e o Deficiente

Respeite o Pedestre, Especialmente o Idoso e o Deficiente

No início do meu trabalho com o Caminha Rio tinha uma implicância forte com os ciclistas que andavam pela calçada. Moro em um bairro onde há muitas entregas de bicicleta e não é surpresa ver os garotos subindo e descendo a rua pilotando suas magrelas a toda velocidade. Essa situação sempre me deixou de cabelo meio em pé; mas quando a minha mãe ficou com a mobilidade reduzida - e vejo o sacrifício que é pra ela andar na rua - a preocupação aumentou. 

Há muitas pessoas como a minha mãe andando por aí. Elas têm problemas que vão desde a dificuldade motora até a cegueira e a surdez parciais ou totais. Então é preciso tomar cuidado ao cruzar com esse grupo delicado. São pessoas que não conseguem se desviar de uma bike ou de uma patinete com rapidez se for necessário. Muitas vezes nem conseguem perceber a aproximação de um ciclista ou de outro pedestre em razão das suas deficiências. Se as circunstâncias nos obrigarem a pedalar em cima da calçada, não podemos esquecer disso de jeito nenhum. 

A Disputa de Um Lugar Para O Pedestre

Certamente, para um jovem em perfeitas condições de saúde, é difícil se colocar no lugar de uma pessoa idosa e de uma pessoa com deficiência. Compreendo que não é por mal, é falta de informação e, principalmente, falta de uma educação formal que não nos prepara para “envelhecer”. Além disso, há uns trinta ou quarenta anos atrás, não podíamos imaginar que hoje a cidade teria essa configuração de mobilidade que se apresenta hoje. Desde o incremento do número de motos até o crescimento dos não motorizados, praticamente não houve mudanças significativas no desenho das cidades para o mix de modais. Então disputamos injustamente um espaço que já deveria ter aumentado para nós pedestres e ciclistas.

Hoje era preciso ter uma rua onde 30% do espaço fosse dedicado aos carros e o resto aos pedestres, às bicicletas, às patinetes, aos segways, às cadeiras de rodas motorizadas, transportes públicos e sabe-se lá Deus o que mais vier por aí nos próximos anos. Mas enquanto isso não acontece, precisamos com muita urgência de uma educação para o novo trânsito e muitas ações de sensibilização para despertar o respeito com os deficientes e os idosos - que lamentavelmente continuam sendo bastante sacrificados em seus direitos de mobilidade.

Há dois anos atrás fui convidada para assistir a instalação de um sinal sonoro no bairro da Urca, numa travessia que fica em frente ao maior instituto de educação para pessoas com deficiência visual, o famoso Benjamin Constant. Na ocasião tive a oportunidade de ouvir um grupo de cegos convidados para a inauguração reclamar de ciclistas que usavam a ciclovia local - no meio das duas pistas onde está a travessia completa dos cegos. Os ciclistas não respeitavam o sinal de trânsito e isso estava causando alguns acidentes com os alunos do instituto.

Eu fiquei negativamente surpresa e bastante indignada. Mas conforme os meses foram passando fui percebendo que a falta de informação é generalizada, inclusive em lugares do mundo onde nós - de forma equivocada - acreditamos que o nível de educação e conscientização das pessoas é maior do que o nosso. A chegada das patinetes só veio confirmar a minha hipótese. Com a confusão e a grande quantidade de acidentes que provocaram em tão pouco tempo, está claro que precisamos nos reorganizar na cidade levando em conta que mais idosos e mais pessoas com deficiência estão nas ruas.

Estamos cansados dos custos que os carros nos causaram. Financeiros e na saúde. Estamos cansados de um sistema de transportes ineficiente em sua maioria. Queremos nos livrar de ambos. Em distâncias curtas e médias a bike surge como uma solução para uma vida mais econômica e mais saudável. E as patinetes são uma maravilha para quem vai saltar do metrô e do ônibus e não está a fim de caminhar até sua casa. Mas, enquanto o espaço das vias não “se abre-te sésamo” para os mais frágeis, precisamos encontrar formas de todos compartilharem as vias democraticamente. Lembre da sua avó. Será que ela já não reclamou de um ciclista mais desatento que tirou uma fina dela na calçada? É possível. 

Mobilidade Urbana de Ciclistas e Pedestres

Brincadeiras a parte, vejo um sem fim de reclamações em redes sociais. Eu entendo os dois lados. Até comprei uma bicicleta para fazer um exercício de empatia com meus amigos ciclistas. Foi uma das melhores coisas que fiz, porque não há nada pior do que criticar sem se colocar no lugar do outro. Agora eu quero convidar os ciclistas para fazer algo semelhante. Quero que eles vão para a rua a pé passear com uma pessoa com deficiência ou alguém de mobilidade bastante reduzida. E talvez, guiando essas pessoas, eles sintam na pele a imensa dificuldade de andar pelas ruas selvagens de uma metrópole como a nossa. E nem adianta argumentar que eles também são vítimas dos ônibus e dos carros. Isso não é desculpa.

Preciso dizer aqui que conheço dezenas de ciclistas sensacionais que militam pela mobilidade a pé e fazem diversas campanhas educativas para esse bom convívio nas ruas. São pessoas maravilhosas que tem muito a contribuir para essa mudança que nós queremos. E na verdade já estão promovendo essa transformação com suas ações, seus grupos e sua vontade de melhorar a nossa cidade. Transporte Ativo, Pedal Sonoro, Bike Anjo, Bike na Pista, a CSCRJ entre muitos outros. Boa parte deles amigos que têm sido parceiros nesses poucos anos de Caminha Rio. Deixo aqui meu agradecimento e os parabenizo pelo seu coração aberto.

A travessia lá na frente do Benjamin Constant continua com problemas. Inclusive, nesta semana, a CET-Rio e organizações da sociedade civil promoveram uma ação educativa no local para os ciclistas. Receio que a ação para ser eficaz terá que se repetir diversas vezes. Os cegos, já tão ceifados em seu direito de ir e vir, não deveriam ficar levando trombadas de ciclistas ou patinetes. 

Há uma década mais ou menos, vemos uma cultura crescente em prol da pessoa com deficiência, dos idosos e um grande movimento social pela inclusão. Aplaudimos, replicamos as boas ações e notícias positivas em nossas redes sociais. Mas é imperativo que nossa primeira ação seja respeitar essas pessoas nas ruas e nos espaços públicos. Ceder nosso lugar nos transportes públicos, deixá-los passar na frente, ajudar na travessia, abrir portas, facilitar subida e descida em escadas, oferecer ajuda sempre, jamais estacionar o carro ou a moto em cima da calçada, frear a bike ou o patinete quando o espaço for mais estreito para não assustá-los, aguardá-los atravessar as ruas com paciência. Parece óbvio? Ainda não é.

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Thatiana Murillo
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Fundadora do movimento Caminha Rio

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