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Acessibilidade: Inclusão cria oportunidades de negócios

Acessibilidade: Inclusão cria oportunidades de negócios

Acessibilidade é o conjunto de condições necessárias para que qualquer pessoa, em especial aquelas com deficiência ou mobilidade reduzida, possa utilizar qualquer espaço com segurança e autonomia. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que existem hoje no Brasil cerca de 13 milhões de pessoas com deficiência. Além de terem o direito à cidadania e à inclusão social, esses brasileiros representam um vasto mercado para bons negócios. Por isso, as apostas em medidas de acessibilidade promovem não só o exercício de democracia e relações mais humanas, mas também a captação de uma enorme fatia de consumidores.

Nesta reportagem, você vai conhecer empresas que incorporaram a acessibilidade em seus negócios de maneiras diferentes, seja pensando na universalização de seus produtos ou na promoção da inclusão como um fim em si. Em comum, elas têm a crença na expansão de consciência, na quebra de paradigmas e na evolução do mercado e da sociedade para uma convivência igualitária.

Guia de rodas

Só quem tem alguma restrição de mobilidade conhece a lista de obstáculos que uma cidade pode oferecer para as atividades mais simples. Calçadas esburacadas, postes mal posicionados, escadas, transporte público com plataforma de acessibilidade quebrada. Não bastassem todos esses empecilhos no caminho, a chegada ao destino nem sempre melhora a situação. 

Foi por isso que o administrador Bruno Mahfuz criou o Guia de Rodas, um aplicativo que tem como objetivo facilitar a vida de pessoas com dificuldade de locomoção. O serviço conta com a colaboração dos usuários para identificar as condições e avaliar a acessibilidade de estabelecimentos como restaurantes, bares, lojas e cinemas. 

“O Guia de Rodas nasceu como aplicativo para avaliação e consulta da acessibilidade dos locais, para ser um repositório de informações para que as pessoas com restrições de mobilidade possam escolher um lugar que lhes ofereça conforto e segurança”, explica Mahfuz.

Lançado em 2006, ano de Paralimpíadas no Brasil, o guia fez sucesso já de cara. “O assunto estava em voga e o Brasil é ruim de acessibilidade. Muita gente começou a baixar o aplicativo e a avaliar os locais. E muita gente sem deficiência avalia, o que muito nos orgulha”, conta o fundador. Hoje, o guia tem avaliações em estabelecimentos de mais de mil cidades, em 60 países. 

Segundo Mahfuz, mais do que um aplicativo, o guia hoje é uma plataforma de acessibilidade que reconhece as melhores práticas e oferece um serviço de certificação. “Hoje, aliamos a vivência de pessoas com deficiência que percorrem os espaços na prática com a percepção de arquitetos especialistas em acessibilidade e o treinamento de acessibilidade atitudinal”, explica. Assim, o guia cumpre uma função social ao mesmo tempo em que gera lucros através dos estabelecimentos que querem se qualificar para oferecer uma experiência diferente para os clientes.

Para Mahfuz, apesar de haver uma legislação que deveria ser seguida por todos, a acessibilidade se tornou um diferencial estratégico. “Não tem jeito, a sociedade é movida por dinheiro. Quando a gente começa a mostrar que lugares com boa acessibilidade atraem mais clientes, a gente promove esses estabelecimentos e estimula a sociedade a olhar para a acessibilidade de um jeito diferente”, pondera.

Vento no rosto

Contrariando a ideia de que as restrições de mobilidade necessariamente fazem parte da rotina de pessoas com deficiência, muitas empresas têm se dedicado a desenvolver soluções assistivas que possam dar mais qualidade de vida a essa população. Uma delas é a Livre Soluções em Mobilidade, empresa que transformou simples cadeiras de rodas em triciclos elétricos práticos e cheios de estilo.

Kit Livre é um equipamento composto por um motor elétrico ligado a uma base com roda e guidão. Criado pelo engenheiro mecatrônico Julio Oliveto a partir do projeto de sua tese de mestrado, o acessório é universal, ou seja, pode ser acoplado a qualquer cadeira de rodas convencional, seja ela nacional ou importada. “A cadeira de rodas é a extensão da pessoa com deficiência porque, normalmente, é feita para ela, com todas as especificações para atender ao seu biotipo e sua deficiência. Esse é um dos diferenciais do Kit Livre em relação ao triciclo. Com o kit, a própria cadeira passa a ser motorizada, oferecendo mais mobilidade, autonomia e liberdade para que a pessoa possa ir a qualquer lugar sem precisar da ajuda de ninguém”, explica o inventor.

Segundo Oliveto, o próprio usuário consegue acoplar e desacoplar o equipamento. Além disso, o kit tem acelerador, freios e sistema de direção customizados de acordo com a necessidade do usuário. “Por exemplo, uma pessoa que sofreu um AVC e tem um lado do corpo paralisado precisa que os comandos do kit sejam acionáveis do lado em que ela tem movimento. Outro caso: uma pessoa tetraplégica não tem o movimento de pinça nas mãos e precisa que o acionamento de freio e aceleração seja diferenciado. Por isso, estudamos caso a caso”, detalha.

O Kit Livre funciona a partir de uma bateria, tem autonomia de cerca de 25 km e alcança uma velocidade de 25 km/h. Os modelos e os preços variam de acordo com a potência. “O Kit Livre Urbano tem potência de 350 a 500 watts e é indicado para uso cotidiano. Os kits da linha Offroad, que têm potência entre 1000 e 1500 watts, são adequados para pisos acidentados e permitem atividades esportivas”, explica Oliveto.

Com essas condições, o Kit Livre tem sido capaz de mudar completamente a vida de pessoas com deficiência. Mas mais do que dar autonomia a elas, o acessório pretende ser ferramenta de mudança cultural na sociedade. “Nosso propósito é não só mudar a vida das pessoas com deficiência, mas também as pessoas à sua volta, a mente da sociedade. Tratamos a questão da acessibilidade de uma maneira que não estimule o sentimento de pena por essas pessoas, mas dê um caráter de igualdade”, afirma Oliveto.

Acessibilidade nas alturas

O conceito de desenho universal, ou design for all, refere-se à intervenção em ambientes, produtos e serviços para que sejam utilizáveis pelo maior número de pessoas possível, independentemente de idade, capacidade, gênero, cultura. Essa ideia está diretamente relacionada ao conceito de sociedade inclusiva e é um dos pilares da EmbraerX, um braço do grupo aeronáutico que busca novas oportunidades de negócios a partir de tecnologias disruptivas.

A EmbraerX tem se dedicado a buscar soluções inovadoras de mobilidade aérea urbana que sejam as mais democráticas possíveis. “Nossa abordagem de inovação é centrada no ser humano, por isso olhamos para as cidades, como elas estão evoluindo, quais são seus principais problemas e quais são os desejos das comunidades e trazemos soluções que atendam a isso. Nosso modelo de negócios só faz sentido se for para todos”, afirma a líder de UX da EmbraerX, Paula Macedo.

Uma das principais apostas da subsidiária é uma espécie de carro voador, conhecido pela sigla eVTOL, de Electric Vertical Take-Off and Landing. Numa parceria com a Uber, o projeto prevê que essa aeronave possa entrar em operação comercial em 2023. “Além do veículo elétrico, queremos atuar de forma mais ampla no ecossistema, como no setor de serviços, gerenciamento de tráfego aéreo, treinamento, entre outros”, revela Paula.

Segundo ela, a questão do acesso é um ponto forte nas pesquisas, não só em relação aos custos, mas também em relação à facilidade de uso. “O conceito de design for all norteia nosso posicionamento em relação ao futuro da mobilidade urbana. Ele faz parte dos nossos workshops, das rodadas de pesquisa com usuários, das conversas com nossos parceiros, das discussões estratégicas de negócios e do desenvolvimento do produto”, conta.

Para que o eVTOL seja acessível no sentido mais amplo da palavra, uma das medidas adotadas são as pesquisas com pessoas com deficiência. “Eles são nossos early adopters e maiores professores sobre como entregar isso na prática. Percebemos que pessoas com dificuldade de mobilidade hoje sofrem grandes dificuldades com as atuais opções”, explica Paula. “A partir de conversas com Leonardo Gleison, um deficiente visual, descobrimos o quanto é desafiador para ele alterar entre vários modais de transporte público. Encurtar distâncias melhoraria de forma significativa a vida dele e é esse o nosso objetivo”, acrescenta.

Diversidade nos negócios

Marcelo Pires era um executivo bem-sucedido quando, um dia, no intervalo entre um fechar e abrir de semáforo, ele viu uma cena que mudou sua vida. “Uma pessoa de cadeira de rodas vendia balas no farol e eu vi um motorista devolvendo a bala e dando dinheiro para ele, como se fosse um pedinte e não um trabalhador”, lembra. Incomodado com a cena, Pires imediatamente estacionou num posto de combustíveis em frente e sugeriu ao proprietário que contratasse o vendedor de balas como frentista. “Ele me respondeu de forma abrupta que não via potencial em um aleijado”, conta.

Meses depois, Pires decidiu trabalhar para mudar essa postura do mercado em relação às pessoas com deficiência. Deixou o emprego, comprou um posto de gasolina e contratou pessoas com deficiência para compor metade do quadro de funcionários. O posto se tornou um sucesso, com vendas acima da média nacional, o que chamou a atenção do mercado e levou Pires a compartilhar a experiência com outras empresas. Assim nasceu a Consolidar Diversidade nos Negócios, que tem como objetivo oferecer a outras empresas soluções que promovam a valorização da diversidade humana no mercado de trabalho.

Infelizmente, a maior parte das empresas que buscam pelos serviços da Consolidar é movida pela necessidade de cumprir a lei de cotas para pessoas com deficiência.

Felizmente, algumas delas, durante o processo, percebem os inúmeros benefícios que uma mudança cultural pode trazer aos negócios e ampliam a inclusão para outros grupos, como afrodescendentes e maturis – trabalhadores com mais de 60 anos. “A conexão entre as diferenças gera mais criatividade e mais sensibilidade, a empresa se torna mais humana”, afirma Pires.

Dentre os resultados da adoção de uma cultura inclusiva, estão a baixa rotatividade, maior assiduidade e maior comprometimento com o trabalho. “Quando a empresa contrata apenas pela cota, ela cria com o funcionário uma relação objeto-objeto. Ele também vai tratar a empresa como um objeto e vai sair dali por qualquer trabalho mais perto da casa dele ou que ofereça 50 reais a mais no salário”, exemplifica Pires. “Quando o colaborador percebe que a empresa tem uma cultura receptiva com a deficiência, ele não vai querer sair dali e vai evitar ser mandado embora. Ele cria uma conexão com a empresa”, acrescenta.

Além disso, a diversidade nos negócios pode estar diretamente ligada aos lucros de uma empresa, porque uma equipe diversificada, com a presença de pessoas com características diferentes gera um grande diferencial de criatividade. “Imagine uma empresa que fabrica peças automotivas e tem em seu quadro de engenheiros apenas homens vitruvianos, com corpos de proporções perfeitas. Essa empresa vai produzir um cinto de segurança que não é confortável para a mulher porque vai incomodar nos seios. Um anão se vê obrigado a se sentar sempre no banco de trás, onde o cinto é feito para crianças, porque o cinto do banco da frente foi feito para um vitruviano”, exemplifica Pires. Por isso, segundo ele, uma equipe de engenheiros formada por pessoas com deficiência, homens, mulheres, idosos vai ser um time de alto desempenho.

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