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Educar Crianças para uma Mobilidade mais Segura no Futuro

Educar Crianças para uma Mobilidade mais Segura no Futuro

Embora a taxa de mortalidade proporcional por acidentes de transporte terrestre (ATT) de crianças e adolescentes em idade escolar (na faixa entre 5 a 14 anos) apresente uma tendência de redução (20,4% em 1996, 16,2% em 2003 e 13,5% em 2013), estes acidentes continuam sendo a primeira causa de morte de crianças e adolescentes nessa faixa etária.

Os atropelamentos são amplamente considerados o maior de todos os riscos de saúde enfrentados pelas crianças em todo o mundo. No Brasil, atropelamento é a principal situação determinante dos óbitos de crianças e adolescentes nos ATT, na condição de pedestre ou ciclista.

Crianças x Mobilidade

As crianças agem de maneira imprevisível, como atravessar a rua correndo sem observar o tráfego, por exemplo. Isso não significa que elas devam ser penalizadas ou responsabilizadas por garantir a sua própria segurança no trânsito. Para a Organization for Economic Co-operation and Development (OECD), a percepção que pedestres e ciclistas, em especial as crianças ​​têm da sua própria segurança, é melhorada através da educação.

A infância é uma fase da vida muito importante e delicada e requer investimentos de suporte social e afetivo. Os cuidados que são oferecidos hoje influenciarão a qualidade de vida das crianças, além de servir para que elas se mirem criando valores e formando suas ideias sobre si próprias e o mundo. Para isso, seria preciso ensinar as crianças a se movimentar com segurança e desenvolver habilidades para um deslocamento mais seguro.

Para a teoria do desenvolvimento infantil, julgamentos perceptivos e respostas motoras só são aprendidos no contexto em que ocorrem ou correlatos a ele. Para Piaget e Vygotsky, aprender é um processo de construção conceitual em que atividades complexas têm como base as atividades mais simples.

A educação básica bem-sucedida suscita o desejo de continuar a aprender. Estudos da UNESCO demonstram que existe uma associação entre o nível de escolaridade dos indivíduos e sua participação em novas atividades educativas e culturais, ou seja, quanto mais formado se é, mais desejo se tem de formação. Este efeito cumulativo se observa tanto em países desenvolvidos, como nos países em desenvolvimento. Portanto, iniciar precocemente a preparação dos indivíduos para o enfrentamento dos riscos de um sistema inseguro – o trânsito – traz, potencialmente, benefícios imediatos e acumulados ao longo da vida. 

A legislação de trânsito brasileira está em consonância com as recomendações fundamentadas ideologiamente pela UNESCO e legalmente pelo Código de Trânsito Brasileiro e Ministério da Educação que determinam que a educação para o trânsito deve ser um direito do cidadão e realizada em todos os níveis formais de ensino. Os esforços governamentais confluíram para a decisão administrativa da utilização da transversalidade do tema trânsito integrada às áreas ditas tradicionais, de forma a estar presente em todas elas. Mas na prática será que é assim? Medidas educativas têm sido defendidas como um meio de ensinar as crianças a lidar com o ambiente trânsito e embora sua fundamentação pedagógica, ideológica e legal esteja clara e incisivamente estabelecida, a sua implementação encontra limitações significativas dificultando o alcance dos objetivos esperados.

Embora tenham ocorrido alguns progressos em relação à melhoria na legislação e um esforço em tornar os veículos mais seguros, a OMS salienta que o ritmo das mudanças em direção à redução da mortalidade por ATT ainda é muito lento. Há uma carência de ações efetivas especialmente para as necessidades dos pedestres, ciclistas e motociclistas que, juntos, compõem metade de todas as mortes do tráfego viário no planeta.

A educação para o trânsito

A educação para o trânsito tem o papel de abarcar o conjunto de conhecimentos relacionados à circulação de todos os modais, os direitos e deveres dos cidadãos, o respeito às regras estabelecidas pela legislação vigente e principalmente a utilização do espaço em comum com segurança, respeito, cooperação e mínima exposição a situações de risco. O texto da Política Nacional de Trânsito (PNT) denota um foco, um interesse particular, em que as ações educativas sejam integradas e coordenadas, ao invés de isoladas e pontuais. Para o Conselho Nacional de Trânsito (CONTRAN) é preciso que o processo seja contínuo e, sobretudo, que as metodologias de aplicação utilizadas sejam capazes de se adequar às diferentes faixas etárias.

Medidas educativas têm sido defendidas como um meio de ensinar as crianças a lidar com o ambiente trânsito e embora sua fundamentação pedagógica, ideológica e legal esteja clara e incisivamente estabelecida, a sua implementação encontra limitações significativas dificultando o alcance dos objetivos esperados. Normalmente a proposta de trabalho da educação para o trânsito centra-se no comportamento, cujo objetivo está direcionado à redução dos acidentes. No entanto, educar para o trânsito não é apenas prevenir acidentes, mas está relacionado também a trabalhar aspectos relacionados à civilidade, vida urbana e a responsabilidade social.

Além desses elementos de formação mais abrangentes, convergem para o trânsito conhecimentos de áreas distintas, que podem ser desenvolvidos no contexto de outras disciplinas. Por exemplo, para saber como se deslocar de uma maneira segura, será importante ter conhecimentos sobre o posicionamento do corpo humano, lateralidade, órgãos do sentido, conhecimentos relacionados ao meio ambiente, dentre outros conteúdos da área de ciências e educação física. Os conhecimentos de Língua Portuguesa e Matemática aparecerão ao se trabalhar análises de textos ou problemas matemáticos com análises de dados de acidentes ou contagem de veículos. Localização, leitura de mapas, identificação de percursos são temas que podem ser trabalhados na geografia. O Trânsito trabalhado de maneira transversal tem como especificidade o fato de, além dos conhecimentos inerentes a ele, outros conhecimentos de áreas distintas nele convergirem e assim, ser possível integrar suas propostas educativas em todas as disciplinas curriculares tradicionais, sem a necessidade de criar uma nova disciplina curricular.

Embora existam alguns resultados empíricos de que atividades educativas sejam válidas para a prevenção da violência no trânsito e um consenso sobre a relevância da educação para o trânsito, existem incertezas de qual a melhor estratégia a ser utilizada. No rol de estratégias, as ações educativas que estimulam a mudança de comportamento se somam a outras medidas também relevantes.

No entanto, a efetividade das diversas formas de intervenções educativas carece de suporte científico, até mesmo pela dificuldade metodológica em isolar seus efeitos de outras medidas concomitantes. Na prática, os métodos não sistemáticos competem com as ações contínuas. Dentro das escolas, o trânsito usualmente é apenas o mote para os eventos esporádicos do calendário anual como, por exemplo, a Semana Nacional do Trânsito, o Dia do Motorista ou o Movimento Maio Amarelo, distribuídos de forma fragmentada com a liderança de poucos professores, cuja conexão está em consonância com sua sensibilidade para o tema.

Programas de segurança no trânsito onde a educação tem sido um dos componentes apontam como resultado mudanças no comportamento observado das crianças, como por exemplo, olhar para os dois lados antes de atravessar, usar o cinto de segurança, atravessar na faixa de pedestres e não correr em direção à rua. Outros estudos argumentam que métodos educativos aplicados na infância favorecem os conhecimentos e as atitudes seguras no trânsito.

Os benefícios quando ocorre não são necessariamente a redução da mortalidade, mas podem haver mudanças no comportamento observado a curto, médio e longo prazo. E, considerando a capacidade das crianças de internalizar precocemente as normas sociais e as regras de acordo com seu desenvolvimento cognitivo e psicossocial, pode-se hipotetizar que quanto antes forem treinadas para esse ambiente, mais cedo as crianças estarão preparadas para um sistema que ainda é imperfeito e por isso, perigoso. Assim acredito e o meu desejo é que as autoridades brasileiras passem a enxergar também desta forma. Educar para o trânsito nas escolas será sempre um bom caminho para um futuro melhor e menos violento.  

 

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